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IA e Direito

O NOVO ESTAGIÁRIO - A advocacia que não nascerá mais do estágio tradicional

Uma reflexão sobre a queda do estágio tradicional, o impacto da inteligência artificial na formação jurídica e a urgência de uma nova escola para a advocacia.

20/05/2026 · Pedro H. da Gama
Banner do artigo O NOVO ESTAGIÁRIO - A advocacia que não nascerá mais do estágio tradicional
“A ponte antiga caiu. Ou construímos outra, ou perderemos a próxima geração da advocacia.”

Durante décadas, a formação prática do advogado brasileiro seguiu um caminho quase artesanal.

O estudante entrava em um escritório ainda inseguro, carregando mais expectativa do que técnica. Começava pelas tarefas simples. Lia processos. Organizava documentos. Fazia resumos. Pesquisava jurisprudência. Preparava minutas. Errava muito. Era corrigido. Ouvia broncas. Refazia. Aos poucos, começava a perceber que o Direito não era apenas aquilo que estava nos livros, mas aquilo que acontecia entre a angústia do cliente, a estratégia do advogado, a prova possível, o prazo fatal e a imprevisibilidade do processo.

Era assim que muitos aprendiam.

Não era perfeito. Muitas vezes era injusto. Em vários lugares, o estágio era menos formação e mais exploração disfarçada. Mas, com todos os seus defeitos, havia ali uma coisa essencial: contato com a PRÁTICA JURÍDICA REAL.

O problema é que esse modelo está entrando em colapso.

E talvez ainda não estejamos falando disso com a gravidade necessária.

A inteligência artificial não chegou à advocacia apenas para ajudar advogados experientes a produzirem melhor. Ela chegou, antes de tudo, para ocupar justamente o espaço das tarefas iniciais, repetitivas, operacionais e formativas que antes eram entregues aos estagiários.

Pesquisar jurisprudência básica. Resumir documentos. Organizar argumentos. Fazer primeiras versões de peças. Estruturar contratos simples. Levantar riscos. Comparar cláusulas. Explicar teses. Produzir relatórios. Revisar textos. Identificar contradições.

Tudo aquilo que, por anos, foi a porta de entrada do estudante na vida prática jurídica, hoje pode ser feito em minutos, quando não em segundos, por uma boa ferramenta de inteligência artificial, sob supervisão de um advogado minimamente preparado.

E aqui começa o drama.

Não se trata de demonizar a tecnologia. Muito pelo contrário. A IA é uma das ferramentas mais impressionantes já colocadas à disposição da advocacia. Ela pode ampliar produtividade, reduzir custos, qualificar pesquisas, democratizar acesso ao conhecimento e permitir que escritórios pequenos façam trabalhos que antes exigiam estruturas muito maiores.

A questão é outra.

Se a IA passa a executar com mais velocidade, menor custo e maior previsibilidade boa parte das tarefas que antes justificavam a presença do estagiário no escritório, onde o futuro advogado irá aprender a advogar?

Essa é a pergunta que precisa incomodar reitores, coordenadores de curso, professores, OAB, escritórios, grandes bancas, pequenos advogados e estudantes de Direito.

Porque o advogado do futuro não nascerá mais, necessariamente, do estágio tradicional.

Ele precisará nascer de uma nova escola jurídica.

Uma escola capaz de unir três elementos que, daqui para frente, serão indispensáveis: inteligência artificial, raciocínio jurídico e prática supervisionada real.

Sem isso, a advocacia não ficará apenas mais tecnológica.

Ficará mais rasa. O que hoje se vislumbra ao olhar par ao futuro do Direito, é uma aplicação jurídica nivelada por baixo, e extremamente baixo.

O risco não é apenas o estagiário perder espaço no mercado. O risco maior é a advocacia perder sua cadeia de transmissão.

Os advogados experientes de hoje seguem em frente carregando sua bagagem, sua prática, seus vícios, suas virtudes, sua intuição profissional e sua capacidade de julgamento. Mas muitos caminham como aqueles personagens da velha metáfora dos lemmings, avançando em direção ao penhasco sem perceber que, atrás deles, já não vem uma geração sendo treinada pelo mesmo caminho.

Os antigos ainda sabem como chegaram até aqui.

Os novos talvez nem consigam começar.

E quando os advogados atuais encerrarem sua trajetória, quem terá recebido deles, de forma prática e suficiente, o ofício da advocacia?

A pergunta é incômoda, mas necessária.

A advocacia sempre dependeu de uma combinação entre teoria e prática. A faculdade ensinava os fundamentos, os códigos, os princípios, as disciplinas, a lógica geral do sistema. O escritório ensinava o chão. O cliente. A urgência. A frustração. A negociação. O fórum. A audiência. A escolha difícil. A renúncia a uma tese bonita, mas inútil. A diferença entre vencer uma discussão e resolver um problema.

Só que, se os escritórios médios e pequenos, que são a imensa maioria, passarem a olhar para a IA como substituta natural do estagiário operacional, não se pode simplesmente culpá-los. Muitos estão lutando para sobreviver. Não têm tempo, estrutura ou margem financeira para formar alguém do zero. O mercado está mais competitivo, os honorários mais pressionados, os clientes mais impacientes e a tecnologia mais eficiente.

E os grandes escritórios, ainda que tenham mais estrutura, também não têm obrigação institucional de salvar o futuro da profissão. Eles formarão quem lhes interessar formar. Dentro da lógica deles. Para as necessidades deles. Com os filtros deles.

Portanto, se a formação prática do advogado continuar dependendo da boa vontade do mercado, estaremos diante de uma lacuna gigantesca.

E essa lacuna não será apenas profissional.

Será social.

O que hoje se espera de um Formando em Direito, daqui a 4 anos, com a velocidade de evolução das I.A. é apenas e tão somente mais um motorista de aplicativo ou atendente de fast food.

Porque uma advocacia mal formada não prejudica apenas o advogado. Prejudica o jurisdicionado. Prejudica o cliente. Prejudica o acesso à Justiça. Prejudica o processo. Prejudica a própria democracia.

É por isso que a mudança precisa ocorrer na base.

E precisa ocorrer agora.

As faculdades de Direito não podem mais tratar a inteligência artificial como assunto periférico, tema de palestra, semana acadêmica ou curiosidade tecnológica. O uso profissional, ético e responsável da IA precisa entrar no currículo com seriedade, profundidade e obrigatoriedade. E tenham certeza, não é matéria para apenas um período.

Não basta dizer ao aluno que a IA existe.

É preciso ensiná-lo a usá-la sem se ajoelhar diante dela. Coloca-lo em pé de igualdade a quem já está praticando a anos, quando ele chegar no mercado.

O estudante precisa aprender a formular bons comandos, revisar respostas, identificar alucinações, proteger dados sigilosos, preservar deveres éticos, comparar fontes, questionar resultados e, principalmente, entender que a IA não substitui o juízo jurídico. Ela acelera o trabalho, mas não assume a responsabilidade. Ela sugere caminhos, mas não carrega a carteira da OAB. Ela escreve, organiza e pesquisa, mas não deve decidir no lugar de quem tem dever técnico, moral e profissional de decidir.

O novo estagiário terá que ser mais sofisticado.

Não porque precise saber mais tecnologia do que Direito.

Mas porque precisará saber Direito o bastante para não ser enganado pela tecnologia.

Esse é o ponto central.

O aluno que apenas souber pedir respostas à máquina será frágil. O aluno que souber pensar juridicamente com o apoio da máquina será poderoso.

Por isso, ao lado da IA, as faculdades precisam reforçar algo que parece óbvio, mas não é: raciocínio jurídico.

Não apenas decorar artigos. Não apenas repetir conceitos. Não apenas conhecer classificações. Mas aprender a pensar como jurista.

Transformar fatos em problemas jurídicos. Separar o relevante do irrelevante. Identificar a prova que falta. Perceber o risco oculto. Construir hipóteses. Derrubar as próprias teses antes que o adversário as derrube. Escolher argumentos. Organizar pedidos. Compreender consequências. Saber quando a melhor solução não está na ação judicial, mas na composição.

A inteligência artificial pode ajudar em tudo isso.

Mas não pode ser tudo isso.

Se a faculdade não ensinar o aluno a pensar, a IA pensará por ele. E quando isso acontecer, já não teremos um advogado usando uma ferramenta. Teremos uma ferramenta conduzindo alguém que não sabe para onde está sendo levado.

E, finalmente, vem o terceiro pilar: prática supervisionada real.

Não simulacro. Não teatro acadêmico. Não peça fictícia feita apenas para cumprir carga horária.

Prática real.

Atendimento real. Problema real. Pessoa real. Documento real. Prazo real. Responsabilidade real. Supervisão real.

Toda faculdade de Direito deveria ter, obrigatoriamente, um escritório jurídico estruturado, ativo, supervisionado e socialmente útil, preferencialmente em articulação com a Defensoria Pública, com órgãos públicos, com entidades comunitárias e com projetos de atendimento à população vulnerável.

O aluno deveria passar, no mínimo, dois períodos em prática jurídica efetiva, não como espectador de luxo, mas como aprendiz responsável, supervisionado por professores e profissionais experientes.

Ali ele aprenderia algo que nenhuma IA ensina sozinha: a dimensão humana do Direito.

Porque cliente não chega em formato de prompt.

Cliente chega com medo, vergonha, raiva, confusão, urgência, documento faltando, história mal contada, expectativa exagerada e, muitas vezes, sofrimento real.

E é nesse encontro entre técnica e humanidade que o advogado começa a nascer.

A IA pode redigir uma minuta melhor do que muitos iniciantes. Pode resumir um processo com impressionante velocidade. Pode encontrar caminhos argumentativos relevantes. Pode organizar uma tese. Pode sugerir fundamentos.

Mas ela não sente o peso de dizer a alguém que aquela ação talvez não valha a pena. Não percebe, sozinha, quando o cliente não está dizendo tudo. Não mede o impacto emocional de uma audiência de família. Não compreende, com responsabilidade própria, o limite entre esperança legítima e ilusão vendida. Não responde disciplinarmente. Não olha nos olhos.

A advocacia continuará precisando de gente.

Mas não de gente despreparada para trabalhar com máquinas.

Nem de gente que dependa das máquinas para pensar.

É por isso que o novo estagiário não pode ser formado como o antigo.

O antigo estagiário aprendia primeiro a executar. Depois, talvez, aprendesse a pensar.

O novo estagiário precisará aprender a pensar desde o início, porque a execução mecânica será cada vez menos humana.

Ele terá que chegar ao mercado sabendo usar IA, mas também sabendo desconfiar dela. Sabendo produzir, mas também revisar. Sabendo acelerar, mas também pausar. Sabendo perguntar, mas também julgar a resposta. Sabendo que eficiência sem prudência é apenas velocidade em direção ao erro.

E aqui está o recado aos estudantes de Direito: não há motivo para desespero, mas há todos os motivos para movimento.

Quem está se formando agora não pode esperar que o mercado lhe entregue, espontaneamente, o mesmo caminho que entregou às gerações anteriores. Esse caminho está mudando. Talvez esteja desaparecendo. Portanto, será preciso construir outro.

Busque prática real. Atenda em projetos supervisionados. Participe de núcleos, clínicas jurídicas, extensão universitária, defensoria, mediação, pesquisa aplicada. Aprenda IA com seriedade. Estude argumentação. Leia processos de verdade. Escreva. Reescreva. Compare peças boas e ruins. Acompanhe audiências. Peça orientação. Aprenda a ouvir clientes. Aprenda a fazer perguntas. Aprenda a desconfiar das respostas fáceis.

Estágio Remunerado? ESQUEÇA! Este trem já passou, você não pode competir monetariamente com uma I.A. de 20 dólares por mês comparando custo versus benefício. Considere estagiar como um investimento, e um investimento por vezes tão caro quanto sua própria formação.

O futuro não pertence ao estudante que fingir que a IA não existe.

Mas também não pertence ao estudante que achar que a IA basta.

Pertence a quem conseguir unir técnica, pensamento, humanidade e ferramenta.

E aqui está o recado às faculdades: o tempo da adaptação confortável acabou.

Não basta formar bacharéis capazes de passar em provas. Não basta oferecer disciplinas tradicionais como se o mundo jurídico ainda girasse na mesma velocidade de vinte anos atrás. Não basta manter núcleos de prática apenas como exigência formal. Não basta celebrar inovação em eventos, enquanto o currículo permanece preso a uma lógica que já não corresponde ao mercado.

A pergunta que cada curso de Direito deveria fazer é simples e brutal:

estamos formando advogados para o mundo que existia ou para o mundo que já chegou?

Se a resposta for a primeira, estamos empurrando jovens para o penhasco, ou pior, cometendo o primeiro ilícito com o qual seus alunos deverão aprender a lutar contra, o da propaganda enganosa.

E isso é grave, tanto ou mais quanto o parece.

Porque o formando em Direito que sai da faculdade sem prática, sem raciocínio jurídico maduro e sem domínio responsável da inteligência artificial não está apenas mal preparado. Está sendo lançado em uma profissão cuja porta de entrada tradicional, o estágio, talvez já não exista.

O antigo estágio está morrendo.

Mas o novo estagiário pode nascer.

Desde que haja coragem institucional para admitir que a formação jurídica precisa mudar com urgência.

A IA não acabou com a necessidade de formar advogados. Ela apenas tornou essa necessidade mais explícita, mais urgente e menos "terceirizável" ao mercado.

A partir de agora, quem quiser formar bons advogados terá que assumir essa tarefa de verdade.

Com tecnologia. Com pensamento. Com prática. Com supervisão. Com humanidade.

Há a “desconfiança” de que a inteligência artificial extinguirá diversas profissões, e há também a “certeza” de que isso acontecerá simplesmente porque ela pode substituir diretamente algum humano em alguma atividade. Mas existe uma forma mais sutil, mais silenciosa e talvez mais desagradável de extinguir uma profissão do que apenas fazer aquilo que o profissional faz, às vezes até melhor, como já se vê em vídeos, fotografias e até em algumas áreas humanas, como a psicologia, com todo o respeito.

A inteligência artificial pode extinguir uma profissão não apenas substituindo seus profissionais atuais, mas empobrecendo sua capacidade de formar profissionais futuros. E é exatamente isso que parece estar acontecendo com o Direito: não pela eliminação imediata do advogado experiente, mas pela interrupção da cadeia que transformava o estudante em estagiário, o estagiário em advogado, e o advogado, com o tempo, em referência.

Porque o advogado do futuro não nascerá mais do estágio tradicional.

Torna-se obrigatório o nascimento de uma nova escola jurídica, capaz de unir IA, raciocínio jurídico e prática supervisionada real.

Sem isso, a advocacia não ficará apenas mais tecnológica.

Ficará mais rápida, mais barata, mais superficial, mais vulnerável e, no fim, mais vazia.

E uma advocacia vazia pode até produzir peças bonitas.

Mas não produzirá Justiça.

Este artigo tem finalidade informativa e não substitui a análise jurídica individual do caso concreto.

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