Muitas vezes, como advogados, temos a sensação de que o processo judicial é apenas a ponta de um iceberg. Por baixo da lide por alimentos, guarda ou partilha de bens, flutua uma massa densa de emoções não resolvidas e padrões de comportamento que parecem se repetir como um roteiro de filme que o cliente não consegue parar de atuar.
Carl Jung, o pai da psicologia analítica, propôs uma ideia que ecoa profundamente nos corredores dos tribunais de família: nós atraímos aquilo que nos machuca. O senso comum chama isso de "dedo podre", mas Jung chamava de Projeção da Sombra.
A Sombra no Tribunal de Família
Segundo Jung, a "Sombra" compreende todos os aspectos da nossa personalidade que não aceitamos e, por isso, empurramos para o inconsciente. O problema é que o que não é integrado, acaba sendo projetado no outro.
No Direito de Família, o ex-cônjuge frequentemente deixa de ser uma pessoa real e passa a ser o receptáculo da Sombra do nosso cliente. O "outro" torna-se o vilão absoluto, o egoísta, o manipulador. Mas, se olharmos de perto, muitas vezes o litígio agressivo é a tentativa desesperada do indivíduo de combater no outro algo que ele não suporta encarar em si mesmo.
A Compulsão à Repetição e o Custo do Processo
Jung afirmava: "Até que você torne o inconsciente consciente, ele direcionará sua vida e você o chamará de destino."
Na advocacia, vemos isso na compulsão à repetição. Clientes que saem de um divórcio litigioso destrutivo apenas para, dois anos depois, ingressarem em um novo relacionamento com dinâmicas idênticas. Eles "atraem" a dor porque ela é familiar.
Para o Direito, isso resulta em:
1. Processos intermináveis: Onde o acordo é impossível porque a parte, inconscientemente, não quer encerrar o vínculo, mesmo que o vínculo seja o ódio.
2. Sabotagem jurídica: O cliente que pede o impossível apenas para manter a chama do conflito acesa.
O Papel do Advogado Estratégico
Entender a visão de Jung não transforma o advogado em psicólogo, mas o torna um estrategista mais eficiente.
Quando identificamos que a lide é alimentada por uma projeção da Sombra, nossa abordagem muda. Deixamos de ser apenas "combatentes" para sermos gestores de crise. Precisamos ter a sensibilidade de mostrar ao cliente que a vitória jurídica não trará a paz se o padrão interno de escolha e reação não for iluminado.
Conclusão: A Chance de Melhorar
Como discutimos recentemente em nosso núcleo de estudos, a maldade ou a toxicidade não são destinos imutáveis. Todos têm a chance de melhorar, mas isso exige a coragem de retirar as projeções e encarar a própria responsabilidade no conflito.
O Direito de Família moderno exige mais do que o domínio do Código Civil; exige a compreensão de que, às vezes, a melhor petição é aquela que ajuda o cliente a quebrar o ciclo e parar de "atrair" o que o fere.
E você, colega advogado ou profissional da área, já sentiu que estava advogando mais contra a "Sombra" do que contra a parte contrária? Vamos debater nos comentários.
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Este artigo tem finalidade informativa e não substitui a análise jurídica individual do caso concreto.

